SUGESTÕES LITERÁRIAS

Autora: Anamélia Gonçalves (http://digintimos.blogspot.com/search)

 

A saudade tem itinerário. Som, sabor, cheiro.
A saudade tem um rosto imaginário, e fala com língua própria.
Na cidadezinha, Piedadezinha de que agora me lembro, habitavam seres que somente posso avistar quando recordo seus odores, e se minha língua roça a textura das rosquinhas, do pão de queijo, da rosca de fermento, do biscoito de polvilho que escuto desmanchar-se junto com  minha saliva  e a chuva no telhado  a embalar meu sono nas noites sem luz elétrica.  Meus olhos me traem e de suas imagens, e de seus nomes, somente me recordo, naquele sotaque próprio daquelezinho meu lugar.
Padrintião, Tialica, Bastião Jorge, Samaria, Fuso, Padijair: somente podem continuar existindo porque se tornaram palavras. Essas pessoas só existem assim, com esses nomes. Minha lembrança só os compreende e os reconstrói se chamados assim. É a língua que minha memória fala e que meu presente entende.
A farmácia do Sô Taíde, com seus tubos, vidrinhos, vidrões, líquidos coloridos que mais pareciam poções mágicas.
Na esquina da “rua do meio”, a venda do Totonho. Pasmem: O Bataclã. Ainda sinto o cheiro do açúcar exposto em um saco umedecido e melado,  enrolado na boca, aroma que se misturava ao do café moído na hora, do fumo de rolo e da cachaça. No Bataclã se achava de tudo: até calcinha para menina moça.
Do outro lado, logo em frente, a grande loja do Zé Sirvino com seus balcões imponentes, piso de granito, seus tecidos e sapatos maravilhosos. A meus olhos de criança, um pedaço da cidade grande ali, tão deslocado. A entrada do porão, fechada com portão de vidro gradeado, sob o degrau da porta da frente da loja, mexia com minha imaginação. Sempre quis enxergar através do vidro fosco em que dimensão ia dar aquela passagem. A construção de dois andares parecia um palácio - rodeada por  casinhas já envelhecidas, desbotadinhas - naquela pequena vila, com suas ruas empoeiradas que desciam em desvãos imensos e acabavam em planícies gramadas, onde eventualmente se armava uma tenda de circo. E aí  era festa. A festa da minha noite de criança que só nesses dias podia durar até nove horas.
A casa grande da Marinácia, quitandeira de primeira e seu marido prático, Gerado'Stevo, de quem me lembro em meus delírios febris da infância. A injeção guardada no estojo de aço inoxidável, cujas agulhas eram esterilizadas na hora do uso em água de fervura. Com seus  óculos na ponta do nariz empurrava o tenebroso e enorme êmbulo para tirar o ar do percurso que o remédio faria. E já me doía uma dor antecipada por saber que não conseguiria escapar dos pulsos fortes do pai que me segurava.
A casa grande da Marinácia, em cuja calçada de pedra nos sentávamos à sombra, para fugir do sol do meio dia, após uma travessura qualquer e víamos passar tantos personagens que hoje me parecem mais figuras saídas de contos de fadas: Maneluca, Zico, Bitota... Paraná, Tião Pachola, Arcidi (Alcides) pé-de-pato... figuras encantadas, que viveram e morreram como quiseram, fazendo inveja aos lúcidos e justos e sérios. Há sempre Manelucas, Zicos, Bitotas, perambulando por essas antigas novas ruas de qualquer cidadezinha qualquer.
Posso sentir agora esses mesmos cheiros, o gosto quente da broa de fubá saindo do forno nas manhãs de sábado, o alto-falante  da igreja que já queria substituir o sino, me acordando nas manhãs de domingo, e eles me ajudam a  mapear esses caminhos que já não existem.
Corro para me sentar de novo naquelas pedras, nas pedras enormes da casa grande e fugir do presente cintilante que me cega a lembrança. A casa não está mais lá. Construíram uma esquina na calçada dos meus sonhos.